Mostrando postagens com marcador teatro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador teatro. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Festim de Palavras, ato II, cena I

Segundo ato da peça aindaincompleta, de co-autoria do Kinch e minha. Enquanto o primeiro ato apresenta diversos personagens ao público, o segundo é centrado em dois personagens, o abade Müller e Garcin, envolvidos numa briga que nos arrancou muitas gargalhadas enquanto escrevíamos. Como se fôssemos o James Joyce. Rá!

O ato se passa dentro da igreja local; Garcin e o abade discutem depois da missa celebrada pelo último (e avacalhada sotto voce pelo primeiro).


[...]

(Irrompe um rosnado.)

O estomagodoabade: Traze-me algo!

(O abade apanha uma tigeladeprata. Enfia nela a mão esquerda e colhe um formidável bocado de hóstias, as quais enfia na bocarra e mastiga de forma animalesca. Engole a pasta mastigada. Arranca a garrafa das mãos de Garcin e bebe um cálice deumgolesó.)

O abade (arrotando): Vês como tenho uma excelente digestão. Devias preocupar-te com a tua, pois tua lascívia vai trazer-te em breve um cornudo qualquer com uma faca para abrir-te a barriga!

Garcin (ouve-se um peido): Ouviste? É o sistema digestivo reivindicando, reclamando a própria vivência e bem-estar! (Desata em gargalhada.)

O abade (come outro bocado, bebe mais um gole): Ninguém se preocupa com o bem-estar dos ratos.

Garcin (sarcasticamente terno): Podes alcançar-me um pouco desse corpo de Cristo, meu anjo?

O abade: Foste um rato puro. Comunga com a Igreja. (Deposita a tigela no soalho e, com o pé esquerdo, empurra-a na direção de Garcin, que a apanha, devora as hóstias restantes e atira-a para longe.)

[...]

(O abade, cegodefúria, ziguezagueia em busca de outra arma. Colhe um grandesantodemadeira e corre de volta contra Garcin. Levanta com esforço o maciço São Tomás de Aquino.)

Tomás de Aquino: Morituri te salutant.

Garcin: Aquino não poderia mesmo ser oco...

(O abade quebra o santo na cabeça de Garcin, que cai desacordado, com um galo emrápidocrescimento e um ou dois pequenos sangramentos no rosto, causados pelos cacos de garrafa.)

A cabeça de Aquino (rolando pelo pavimento): Meu teste aristotélico cumpriu-se perfeitamente!

[...]

Garcin (falando de olhos fechados): Um primeiro galo, um segundo, um terceiro ferimento – foi-me bom o rendimento!

O abade (gaguejando): E-está fa-falando? Francês? (apavorado.)

[...]

(O abade arrasta o francês até o altar: esconde-o sob a mesa, onde é oculto por longa toalha branca.)

Weinstein (batendo à porta): Senhor abade!

O taverneiro (idem): Eminência!

As batidas: Tchan-tchan-tchan-tchaaaaaaaan!

O abade (reagindo às batidas): A quinta!

Garcin: Aos quintos! Que interpretação horrorosa! Não conhece Furtwängler?

domingo, 20 de abril de 2008

Festim de Palavras, ato I

Excerto do primeiro ato de uma peça iniciada por Kinch e por mim em 2005, ainda inacabada. O abade Müller encomenda uma casimira ao vendedor de tecidos, Weinstein, que será buscada pelo padre Garcin. Estes dois serão as figuras centrais do segundo ato (do qual logo postarei um excerto).

(Entra o rapazinho Friedrich, tendo segura sob o braço uma tabuleta onde lê-se, simplesmente: aplausos.)

Friedrich (jocoso): Não se morre no meio do quinto ato. (Deposita a tabuleta ao pé do balcão.)

O abade (novamente distraído, tendo perdido os olhos em meio a duas saias) Oh... sim... (volta-se, num rompante de pânico) Onde?! (Olha Friedrich, fitando-o intrigado, logo dando-se conta e fazendo um sinaldacruz) Eu preciso ir: rosna-me a fome. Estejais com Deus... (Eleva a voz sutilmente) ambos!

O estômago abacial (enérgico, rosna): Salame!

O dono do estômago (subjugado): Qual?

O estômago: Hamburguês!

O dono: Regado a um bom vinho... Ótima sugestão!

O estômago: Não! Cerveja!

O dono (contrariado): Prefiro vinho...

O estômago (imperativo): Cerveja! À taverna!

O dono (resignado): Ao senhor Jakob Hitler, então. (Faz outro sinaldacruz ao judeu e ao menino e sai no mesmo instante em que o leiteiro está a entrar. Os dois ficam entalados por alguns instantes, até que o maior vigor do leiteiro prevalece, empurrando o abade de volta para dentro. O abade finalmente deixa o lugar.)

Friedrich (com o pé, deita a tabuleta): Papai está alterado. Ele não é movido a álcool, o senhor sabe, não senhor Weinstein?

Weinstein (rememorando): Sim. Aquela festa da colheita, quinze anos atrás... Não bebo mais de uma caneca desde então. Índices alcoólicos elevados prejudicam a direção.

Leiteiro: De fato! De fato... leite é o novo carvão dos corações taverneiros, arruaceiros, bandoleiros... (voz gradativamente mais baixa) Bom, senhores; em respeito sublime, astral, magnânimo (voz enfática) que devoto à auréola abacial, ainda não espalhei de meu ar! Mas fiquem tranqüilos que o leite ainda não virou coalhada! (Com jovialidade pura, estende uma garrafinha de leite ao jovem Friedrich) É de boa safra! (Ele abre a garrafa e bebe um gole. Então, estende a garrafa a Friedrich) Tomou?

Friedrich (seco): Essa empresa acabará por falir, senhor Brahms.

Weinstein (distraído): Cacau adicionado ao leite fica delicioso.

Brahms (confuso): Obrigado pela sugestão, senhor Weinstein. (O músicoleiteiro sai.)

(Ouve-se a voz de Brahms do lado de fora.)

Brahms (a outra senhora idosa): Leite fresco!

A senhora Kohl (jovial): Não, obrigada.

Brahms (à outra senhora que acompanha a primeira): Leite? (Os três aparecem através da porta.)

A outra senhora (de forma rabugenta): Não! Não quero seu leite, suas sinfonias, seus concertos! Chega dessa insistência!

Brahms (sarcástico): Eu só venderia o leite à senhora. Minhas sinfonias e meus concertos, vendo-os a Viena.

(A primeira senhora disfarça um sorriso.)

A primeira senhora: Adeus, senhor Brahms!

Brahms: Adeus, senhoras Kohl!

(As irmãs Kohl se vão.)